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Você sabe o que é a Medicina Baseada em Evidências (MBE)?

17/04/2017

Neste post vamos falar sobre um assunto que para a maioria de nós, até mesmo os profissionais de saúde, causa um certo estranhamento. Isso já começa pelo próprio nome “Medicina Baseada em Evidências”, afinal a prática médica em si já não é científica por si só? Pois é... não!

 

E é justamente pelo reconhecimento de que muitos dos procedimentos utilizados na medicina hoje em dia não têm respaldo científico satisfatório para aprovar ou não sua prática que, em meados dos anos 80, iniciou-se um movimento internacional cujo objetivo era sistematizar o conhecimento científico e evidenciar a segurança e eficácia de cada procedimento médico realizado em cada especialidade.

 

Essa iniciativa recebeu o nome de Colaboração Cochrane em homenagem ao médico britânico Archie Cochrane, que além de médico e um dos criadores da MBE, era um grande defensor dos direitos dos pacientes. Ele e outros companheiros desenvolveram uma metodologia de pesquisa chamada revisão sistemática, que permite sintetizar as milhares de pesquisas feitas sobre um mesmo tema.

 

O grupo da Colaboração Cochrane de Gravidez e Parto foi um dos primeiros a se organizar e desenvolver pesquisas. Notou-se que na assistência ao parto a incoerência entre a prática médica e as evidências científicas ela alarmante. Vale a pena ressaltar que este trabalho levou mais de uma década para ser concluído, contou com mais quatrocentos pesquisadores que revisaram cerca de 40.000 estudos publicados sobre o tema desde a década de 50, e que englobam e classificam a efetividade e segurança de 275 práticas de assistência perinatal.

 

Em 96 a Organização Mundial da Saúde publicou pela primeira vez uma síntese desse trabalho que ficou conhecida como “Recomendações da OMS”, e que posteriormente foram publicadas no Brasil pelo Ministério da Saúde com o título “Assistência ao parto normal, um guia prático”, o que deveria ser leitura obrigatória em qualquer curso superior voltado à assistência a gestante.

Apesar disso tudo o ritmo de mudança nas práticas obstétricas ainda é muito lento. Estima-se que na América Latina apenas 15% dos procedimentos utilizados sejam baseados em evidências científicas sólidas, e especificamente no Brasil o atendimento ao parto normal se vale muitas vezes daquilo que a ciência condena.

 

O maior problema que encontramos na prática obstétrica brasileira se dá no abuso indiscriminado de procedimentos médicos realizados como rotina, o que implica naquilo que chamamos cascata de intervenções. Ou seja, a cada intervenção realizada se soma um risco, e para compensar ou corrigir esse risco se faz uma nova intervenção, e assim por diante, o que resulta em uma sucessão de procedimentos invasivos, dolorosos e potencialmente perigosos e danosos. Dessa forma a mulher vai sendo passivamente processada em diversas etapas, como em uma linha de produção.

 

Embora já faça mais de dez anos desde a primeira publicação da OMS, a maioria dos profissionais de saúde ainda hoje é formada no modelo intervencionista pois as instituições têm sido muito lentas em incorporar as “novas” informações, provavelmente devido a falta de experiência com o novo modelo.

 

No modelo convencional de assistência ao parto, conscientemente ou não, o corpo feminino é tratado como incapaz de parir naturalmente, dependente da tecnologia, frágil e potencialmente perigoso para o bebê. Isso é o que muitos pesquisadores chamam de viés de gênero, que nada mais é do que um olhar preconceituoso e distorcido sobre o corpo da mulher, que recebe definições como imperfeito ou impróprio ao invés de adequado e saudável.

 

No entanto, se as evidências científicas apontam para o caminho oposto, podemos concluir que o modelo convencional se mantém devido a uma conveniência aos interesses dos profissionais e hospitais, até mesmo a cultura machista na relação entre homens e mulheres, pois este modelo exerce o domínio sobre o corpo da mulher, sua fisiologia e sexualidade. O movimento pela humanização do parto tem muito a ver com o movimento feminista, e se você tem preconceitos com essa palavra, por favor abra a sua mente, estude e informe-se!

 

De acordo com os direitos humanos, os direitos das mulheres e a Medicina Baseada em Evidências, a gente sabe que o atendimento ao parto deve garantir privacidade, conforto e segurança à mãe. Isso se faz evitando a prática desnecessária de intervenções de rotina, valorizando e facilitando os processos naturais e fisiológicos do parto, respeitando o ritmo do corpo feminino, e sobretudo respeitando os aspectos psicológicos e sociais do nascimento.

 

Os tempos recentes trouxeram um importantíssimos avanços tecnológicos na saúde, que na área obstétrica causou um grande impacto na segurança e sobrevivência de muitas mães e bebês. O que estamos sugerindo obviamente não é um retrocesso tecnológico da saúde, pois não há nenhuma incompatibilidade entre o atendimento baseado em evidências e respeitoso com as necessidades da mulher, sejam elas biológicas, psicológicas ou sociais, e um parto seguro. O que queremos é que haja critério para se utilizar dessa tecnologia para que ela possa prevenir os sofrimentos e riscos ao invés de promove-los, e que a tecnologia esteja a serviço das necessidades humanas para que as necessidades humanas não sejam submetidas à tecnologia.

 

É fundamental que as instituições e os profissionais de saúde reconheçam o parto como uma experiência que transcende o evento biológico do nascimento do bebê. Ele é um marco importante de transformação a nível físico, psico-emocional, espiritual e social, capaz de deixar marcas profundas que influenciam no decorrer da vida da mãe, do bebê, e da família.

 

Somente através dessa visão é que vamos conseguir humanizar o parto no Brasil.

 

 

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